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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Blog do CNC Centro Nacional de Cultura

de 17 a 23 de Janeiro de 2011

A viagem que fizemos ao Japão foi uma oportunidade fantástica para usufruirmos a hospitalidade, a história e a tradição de um povo antigo que conhecemos desde o século XVI. Fomos no rasto de Wenceslau de Moraes e, por isso, levámos connosco o pequeno livro de Ana Paula Laborinho “O essencial sobre Wenceslau de Moraes” (INCM, 2009), que muito nos ajudou, uma vez que o escritor muito nos ensina sobre essa cultura extraordinária e inesgotável. Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao arquipélago de Cipango. Ainda hoje sentimos o peso desse conhecimento ancestral. Fomos, de facto, tratados principescamente e verificámos que Portugal não é indiferente para os japoneses. É fundamental, assim, que conheçamos melhor a cultura japonesa, uma vez que todos teremos a ganhar com o aprofundamento dessa relação.


QUIOTO, CIDADE ÚNICA
Quioto é uma cidade especial. Aqui sente-se bem a tradição japonesa, como sinal de um povo antigo, sereno, amável e hospitaleiro. Estamos na antiga cidade imperial, qualidade que perdeu em 1868, depois de ter havido entre os séculos XVII e XIX uma partilha de influência política com a cidade de Edo, hoje Tóquio, até à revolução Meiji. A cidade é marcada pelo rio Kamo e está situada entre três montanhas. Depois de descansarmos um pouco, após a longa viagem que nos trouxe de Lisboa a Osaka, via Paris, fizemos o que se deve fazer numa cidade a que chegamos pela primeira vez, sobretudo quando tem uma cultura que nos não é imediatamente familiar: a solução é caminhar, com alguém que conheça o lugar e nos possa guiar até ao coração da urbe. E assim, fomos até ao bairro de Gion, que conhecemos das narrativas e descrições romanescas, e aí pudemos ver o desenho tradicional de uma antiga cidade nipónica. Há muitos restaurantes tradicionais, há muito movimento, edifícios baixos e pequenos, em madeira, bem ordenados, assinalados com balões coloridos de papel iluminados. Vêem-se geishas em trajes de função. As ruas são estreitas e limpas, a ordem e a organização imperam. A cada passo, as pessoas saúdam-nos com vénias, ora para nos convidarem a entrar, ora para nos agradecerem se lhes demos primazia no burburinho dos passeios. Era no Outono, uma das estações privilegiadas do Japão, e havia uma especial alegria e jovialidade no ar, mesmo que a noite já tivesse caído há algum tempo. Não havia humidade e a temperatura rondaria os 12 graus. Ao passar pela zona dos teatros, recordamos a importância do Kabuki e a sua evolução. Apesar de ter sido fundado por mulheres, a verdade é que estas foram banidas sob acusação de prostituição, e há muito que o Kabuki passou a ser representado apenas por homens. Complexas maquilhagens permitem distinguirmos o Kabuki do teatro Noh, mas as diferenças são profundas, indo do burlesco à erudição. No restaurante Nishisaka, onde jantamos, sentamo-nos no chão, como tradicionalmente, descalços, e usufruímos uma refeição de um delicioso shabu shabu, pequenas fatias de carne de vaca cozidas por nós em água a ferver, que Camilo Martins de Oliveira nos aconselha, merecendo o aplauso geral.

O AMBIENTE DOCE DE GION
Quando no dia seguinte voltámos a passar por Gion, de manhã cedo, a quietude imperava, num ambiente doce. O rio Kamo é referido pela guia com veneração. As suas águas protegem a cidade e os seus habitantes. Nas margens, passamos pela rua de Pontocho, popularíssima e uma das marcas da cidade. Aqui a referência aos portugueses não se faz esperar. Neste local ficaria um banco de areia e diz a tradição que os nossos compatriotas chamar-lhe-iam ponte. Daí a designação da rua e do local. Passámos a reparar que sempre que se falava dos portugueses os olhos dos nossos interlocutores brilhavam de satisfação. Há um genuíno gosto pelo que somos e pelo facto de termos sido os primeiros europeus a chegar. Naquele lugar distante, fomo-nos assim sentindo em casa. O sol iluminava a cidade e as montanhas e começámos a perceber a beleza extraordinária do «momiji». As árvores que rodeiam a cidade no Outono têm as folhas vermelhas ou amarelas. Wenceslau de Morais (1854-1929), o escritor português que se apaixonou pelo Japão e cujos textos nos acompanham como ajuda preciosa, disse que «as espécies europeias não oferecem igual maravilha em colorido». Sentimos entusiasmo ao ver as grandes massas desta folhagem belíssima. Nessa manhã cristalina, fomos, ao Pavilhão de Prata, o Ginkaku-ji, que literalmente se apagava diante daquela natureza outonal pujante. Depressa percebemos que o importante não era o facto de a prata nunca ter sido colocada para tornar o edifício espectacular. Tudo se passava, afinal, como se apenas faltasse a prata para espelhar a pujança dos jardins, pois o essencial era o movimento das plantas e a ordenação magnífica da natureza. É a memória do xógum Yoshimasa, no distante século XIV, que está presente, neste edifício a partir da recordação de seu avô Yoshimitsu, que num gesto de suprema audácia, cobriu de folha de ouro o Pavilhão Dourado, o surpreendente Kinkaku-ji, celebrado por Mishima… Mais do que a prata ou o ouro, o importante era o enaltecer da natureza em toda a sua intensidade. E talvez a ausência da prata pudesse ter sido um desígnio divino, para que as árvores e as plantas pudessem tornar-se mais evidentes na sua magnitude.

O OUTONO MÁGICO DO «MOMIJI»O momiji tudo domina, parecendo dizer que a natureza culta, domada pelo ser humano, é dominada pelas folhas escarlate, como se fossem flores. Deambulamos pelos caminhos do jardim, contamos as suas pedras, deslumbramo-nos com os musgos tratados, com as águas, com os lagos, com os jardins secos, com o saibro riscado ou a terra cuidadosamente penteada a representar ilhas, oceanos e os rios da vida. Depois, vamos pelo caminho dos filósofos ou via dos mestres. Um canal ladeado de cerejeiras segue sinuoso pelo sopé das Montanhas Orientais e há muita gente que caminha, gozando a natureza, conversando, lendo ou simplesmente indo em direcção ao templo zen de Nanzen-ji. A designação recente do percurso deve-se ao filósofo Nishida Kitaro (1870-1945), professor da universidade de Quioto, que tornou este lugar simbólico obrigatório para a compreensão da cultura japonesa. Os tons vermelhos e amarelos das folhas do Outono inebriam-nos, o sol e o dia ameno contribuem para o nosso deleite.

«SÊ MESTRE DA TUA MENTE»Chegados a Nanzen-ji sentimos que a lição «sê mestre da tua mente» é um elemento fundamental nesta cultura do conhecimento e da compreensão. A colossal Sanmon à entrada do recinto do templo dá-nos a impressão de que estamos num lugar essencial para a cultura zen. Este portão descomunal não tem um prego, foi erguido no século XVII apenas com encaixes que põem à prova a habilidade e a inteligência humanas. Tudo para consolar as almas dos que morreram num cerco do Castelo de Osaka. Nos aposentos do Abade do Convento deparamos com o célebre “Tigre a beber água”, obra-prima da pintura tradicional japonesa do século XVII da autoria de Tamyu Kano, além de uma intervenção de Kobori Enshu, com seixos e pinheiros num impressionante jardim seco. A verdade é que a relação do tempo e do universo tem sempre uma importância especial. Sentimo-lo no equilíbrio entre a arte e a natureza em Nanzen-ji, nos jardins, nos seixos, nas representações, mas especialmente na cerimónia do chá, no templo de Kodai-ji, nessa tarde. A preparação, a simbologia e os gestos – tudo exige um forte domínio do corpo e da presença, em nome do respeito, da tranquilidade, da pureza e da harmonia. No fundo, o culto é muito mais do que uma tradição, é um gesto litúrgico, até de influência cristã. Folheamos “O Culto do Chá” de Wenceslau de Moraes: «nos templos famosos em Quioto, por exemplo, o bonzo oferece chá ao peregrino antes de mostrar as relíquias e os museus». Que mais dizer?  
  

Guilherme d'Oliveira Martins 
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Antologia Poética de Jorge de Sena

de 10 a 16 de Janeiro de 2011

“Antologia Poética” de Jorge de Sena (Guimarães Editores, 2010), edição de Jorge Fazenda Lourenço é uma recolha criteriosa que nos dá um retrato de corpo inteiro do poeta de “Fidelidade”. Estamos diante de um dos poetas e ensaístas mais notáveis do século XX. E nesta obra essa riqueza é bastante evidente. Sena fala, por isso, da sua criação poética deste modo: é “a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado, e sempre presente com uma vontade de ferro”. E é essa definição que sentimos ao ler esta antologia, onde poeta e ensaísta sempre se associam, numa criação riquíssima de palavras e ideias. 


Jorge de Sena, por Fernando Lemos

HOMEM DESTINADO…
Para Jorge de Sena, o poeta deveria ser visto «como um homem destinado a nele se definir a humanidade: um ser capaz de ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o presente integralmente em futuro». Jorge Fazenda Lourenço recorda oportunamente essa afirmação ao apresentar esta antologia, que propositadamente abrange apenas uma pequena parte da obra, menos de um décimo, pretendendo, contudo, por um lado, dar uma imagem significativa do poeta e, por outro, apresentar um aperitivo suculento para a publicação da Poesia Completa, que agora (em boa hora) se anuncia. Daí que Jorge Fazenda Lourenço, profundo conhecedor da obra de Jorge de Sena, tenha tido o cuidado em apresentar a antologia fundamentalmente como um roteiro, certo de que nunca uma obra, qualquer que seja, pode resumir-se ou limitar-se. «Uma antologia apetece ser breve. Para que a escolha, que é do domínio do esparso e do fragmentário, não pretenda substituir-se à totalidade do corpus. Para que o pouco que se mostra crie o desejo de saber o corpo inteiro. E um poeta como Jorge de Sena é para ler-se todo». Dir-se-ia que afirmação vale para qualquer poeta, mas neste caso há uma razão especial para o lembrar, já que nos encontramos diante de uma criação literária multifacetada e complexa, em que o poeta e o ensaísta estão plenamente na sua riquíssima produção. E que faz o organizador? Começa, e bem, por pedir ao próprio poeta que nos ajude no roteiro apresentado. Daí os textos significativos que podemos ler a abrir a obra, onde Sena fala de Sena. E assim podemos contar com a ajuda do autor, que exerce a sua proverbial verve analítica, dotado que era de uma inteligência e de uma argúcia capazes de nos criar encantamento. No Prefácio da “Poesia III” (1978) encontramos, aliás, uma passagem fundamental, onde Jorge de Sena procura explicar-nos o percurso dos seus títulos poéticos e da sua obra, que merece leitura atenta. Parte o autor de Patrice Latour du Pin («la vie recluse en poésie») e dá-nos como que uma chave para a compreensão de quem é e do que escreveu como poeta. É no entanto apenas uma tentativa explicativa do caminho pessoal, incapaz de poder ser resumido em poucas palavras ou em referências capitulares. A leitura desse texto tem de ser compassada, lenta e meditada, para percebermos que o acaso é algo que quadra mal com o poeta de “Perseguição”. «O homem corre em perseguição de si mesmo e do seu outro até à coroa da terra, onde humildemente encontrará a pedra filosofal que lhe permite reconhecer as evidências. Ao longo disto e depois disto e sempre, nada é possível sem fidelidade a si mesmo, aos outros e ao que aprendeu / desaprendeu ou fez que assim acontecesse aos mais. Se pausa para coligir estas experiências, haverá algum Post-Scriptum ao que se disse. Após o que a existência lhe são metamorfoses cuja estrutura íntima só uma arte de música regula. Mas, tendo atingido aquelas alturas rarefeitas, andou sempre na verdade, e continuará a andar, os passos sem fim (enquanto a vida é vida) de uma peregrinatio ad loca infecta, já que os “lugares santos” são poucos, raros, e ainda por cima altamente duvidosos quanto à sua autenticidade. Que fazer? Exorcismos. E depois vagar como Camões numa ilha perdida, meditar sobre esta praia aonde a humanidade se desnude, e declarar simplesmente que terminamos (e começamos) por ter de declarar: Conheço o sal… sim, o sal do amor que nos salva ou nos perde, o que é o mesmo. O mais que vier não poderá deixar de continuar esta linha de, sobretudo, fidelidade, “à honra de estar vivo”, por muito que às vezes doa». Parece uma citação excessiva, demasiado longa, mas facilmente se percebe, que não poderia ser truncada, porque o poeta é propositadamente exaustivo e sintético na explicação das palavras fundamentais que entende realçar, com uma especial força dada à fidelidade.

CULTOR DA VIDA CONTRADITÓRIA
Jorge de Sena cultiva as contradições, mas não se deixa arrastar pelo domínio da palavra vã (“e a miséria é isso: não imaginar / o nome que transforma a ideia em coisa…”, como diz em “Peregrinatio”). O percurso da vida e da obra procura ligar o rigor da reflexão, do argumento e a criatividade das palavras que flúem: “Não procures o que é efémero…; / não procures o que é Eterno, / tu não podes saber, tu não chegas para saber / o que é ou não é eterno” (“Perseguição”, 1942). Mas, neste ligar do que se contradiz e do que põe em causa, que o mesmo é dizer, neste considerar da dúvida, há o entendimento de que “Soube-me sempre a destino a minha vida”… Quantas incompreensões? Quanto espaço difícil de gerir? Quanto destino interrogador? A personalidade do poeta foi por muitos apontada como difícil, mas hoje, à distância, fácil é de entender que Jorge de Sena sentia em si uma força criadora e uma energia que chocava com a mediocridade que via em roda – e daí a insistência no “reino da estupidez” e a sua incompreensão pela falsa resistência do silêncio e da indiferença. Segue aí o autor os passos de António Sérgio sobre o “reino cadaveroso”, sentindo na carne e nos solavancos da vida, a terrível resistência à qualidade e ao talento. Com a responsabilidade de uma grande família e o apego insistente à liberdade de pensar e ao culto permanente do inconformismo, Sena é uma personagem que procura corporizar a poesia com grito de alerta pela dignidade humana – oiça-se, por exemplo, “Uma pequena luz bruxuleante…” ou “Senhor, não peço mais que silêncio”. Aí está a força inequívoca de quem combate com palavras e ideias, contra os espaços fechados ou as cartas marcadas. Em Chartres, invocando Péguy, sentimos o cosmopolitismo europeu: “Europa, minha terra, aqui te encontro / e à nossa humanidade assim translúcida / e tão de pedra nos pilares sombrios”. No entanto, na porta lateral da catedral de Colónia, Jorge de Sena, o português naturalizado brasileiro, sente-se rejeitado, através do ecumenismo lusitano da dupla nacionalidade: “Ah, naturalizado, não é brasileiro”; “Brasileiro naturalizado? Ah, não é português”. O registo humorístico não dá para esconder uma mágoa inequívoca. Mas, ao lado do registo sublime, o poeta sabe que tem de descer aos lugares infectos e à miséria humana. Lembre-se o alucinante diálogo “em Creta, com o Minotauro”, com a presença do abjecto e do sublime, da raiva e do orgulho, além de “O Desejado Túmulo”. “Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria / de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações / nasci…”. Mas, perante tão majestoso interlocutor o poeta terá de dizer: “Nem eu, nem o Minotauro, / teremos nenhuma pátria…”. Mas quando lemos o extraordinário poema que começa “De morte natural nunca ninguém morreu”, sentimos um intenso frémito suscitado pelo poeta que interroga os limites e que procura nas palavras o sentido da vida relativa. Do mesmo modo, o amor surge paradoxal, na corda bamba de eros e tanathos: “Amor, amor, amor, como não amam / os que de amar o amor de amar o amor não amam”. Na repetição aparente das palavras, encontramos diferentes sentidos que procuram dar-nos a ideia de incompreensão. E como não ter bem presente na revisitação de Jorge de Sena dois dos seus poemas emblemáticos, que contêm a simbiose de quem se assumiu como seguidor de quem, como Camões ou Sá de Miranda, soube ligar as ideias e a poética – falo de “Camões dirige-se aos Seus Contemporâneos” e “Carta a Meus Filhos sobre os fuzilamentos de Goya” que ilustram a inteireza do poeta? 
Guilherme d'Oliveira Martins
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