Mostrando postagens com marcador Blog da Cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Blog da Cultura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O homem que coleciona livros que recolhe do lixo

por Kelly de Souza | Comportamento, Literatura, Sociedade, livros
Seu nome é José Alberto Gutiérrez. Todos os dias ele dirige um caminhão de lixo em Bogotá, e com seus ajudantes despeja grandes latas no caminhão. No meio das latas existem caixas e dentro das caixas José, de repente, encontra um exemplar de Anna Karenina, de Tolstói. Ao remexer melhor a caixa encontra outros livros, que retira do caminhão e os leva para sua casa. No dia seguinte, uma nova jornada e José encontra, em outro endereço, uma outra lata de lixo, uma outra caixa e outros livros. Ele já reconhece facilmente esse tipo de “entulho”, e novamente os leva para casa.  “Então comecei a perceber que os cidadãos de Bogotá costumam livrar-se dos livros que não querem e os jogam no lixo”, explica José.
Convidado especial da Feria Internacional del Libro de Guadalajara, México, José falou sobre os mais de 12 mil livros (aproximadamente cinco bibliotecas) que conseguiu juntar desde 2000.  Segundo o jornal Clarin, que cobriu o evento, o catador de lixo, digo, de livros, parecia estar um pouco desconfortável na cadeira que já havia sido ocupada no evento pelo autor brasileiro Paulo Lins (Cidade de Deus), ou por Jean-Marie Gustave Le Clézio, autor de Diego e Frida (2010) e Nobel da Literatura em 2008, entre outros. José sentou-se com humildade, pediu uma simples Coca-Cola ao garçom, e ficou constrangido com os fotógrafos. Não está acostumado a nada disso, e ficou embaraçado com os aplausos na entrevista, onde explicou como surgiu a ideia de encher o primeiro piso de sua casa com livros encontrados pelos lixos da cidade.
“Minha mãe lia para mim, nos acostumou a ler. Não eram muitos os livros que tínhamos, eram como folhetos de estudo onde havia histórias, fabulas… e todos esses continhos me enriqueceram. Quando eu já era adolescente havia em Bogotá muitos livreiros de rua, então comecei a comprar livros, e aos 13 anos, mais ou menos, comprei a “Odisseia”, de Homero. Fiquei apaixonado pela mitologia”, ressaltou José. A vida foi passando, a coleção foi aumentando e os clientes da sua esposa (costureira) viam aquela imensa biblioteca. Alguns pediam livros de escola emprestados para seus filhos.
José percebeu que os livros que eram jogados fora, que estavam no lixo, não estavam sujos ou estragados. Pelo contrário. As pessoas quando têm suas salas e quartos carregados de “recuerdos”, ou livros, se desfazem deles com respeito e os colocam em caixas separadas, não juntando ao lixo perecível. Assim, em 2000, ele e sua mulher decidiram montar uma biblioteca. “Iniciamos numa sala grande, conseguimos estantes e mesas, os vizinhos vinham visitar e levavam livros emprestados. Montamos um catálogo das pessoas, e estas começaram a fazer também doações, e mais livros foram chegando… e começaram a surgir os Círculos de Leitura, as oficinas… e nos demos conta que o bairro havia ficado pequeno e fomos explorar outras regiões de Bogotá, e outras 3 bibliotecas foram instaladas”. Uma delas está localizada na zona rural, na casa de uma família campestre e a biblioteca é manejada por uma garota de 12 anos.
José não recebe qualquer ajuda oficial, embora as autoridades conheçam seu projeto. Não existem subsídios, apoios financeiros e ele segue sozinho mantendo seu caminhão, indo todas as noites “pescar tesouros” nos lixos da cidade. Milhares de livros devem ser jogados fora todos os dias em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e em quase todas as grandes cidades do país, assim como em outras metrópoles do mundo. Centenas de bibliotecas poderiam talvez ser instaladas só com esse material, esse lixo, esse lixo sagrado que é o livro descartado. Numa das salas de José, logo na entrada, escrito na parede, está um dos pensamentos mais dignos de Jorge Luis Borges, onde ele imagina que o Paraíso é como uma grande biblioteca. É lá que mora José Alberto Gutiérrez, o catador de livros. assista o vídeo ,link aqui.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Literatura

Por que escritores colecionam tantos livros?

por Kelly de Souza | Comportamento, Literatura, livros
Um canto da Biblioteca de Ernesto Sábato - Crédito da Foto: Jornal El Pais
O jornal El Pais (portal Babelia) fez uma pesquisa junto a vários escritores para tentar entender o apego que eles têm com os livros. Não somente aos seus livros (publicados por suas editoras), mas pelas coleções, às vezes com milhares de obras que entulham suas paredes, vergam suas estantes, entopem cada canto da casa formando um labirinto de títulos e autores. As respostas variaram de autor para autor, mas de certa forma elas refletem o amor pelo livro, por “ter” o livro fisicamente, pelo ato de colecionar as obras, de guardá-las, de cultuá-las.
“Tenho uma relação alimentar com meus livros”, diz o escritor chileno Rafael Gumucio, autor de La Deuda (2009). “Quero devorá-los, consumi-los e logo, como um frango assado que esfria na mesa, os abandono, negligencio, deixo-os ir”, completa. Martín Kohan, autor de Ciências MoraisRevista Cuadernos De Recienvenido 20/2007 (2010), entre outras obras, revela menos apego. Para ele “manter os livros é como preservar as pegadas das nossas leituras”. Kohan não tem pelos livros de sua biblioteca particular nenhuma veneração ou fetiche. “Eu os tenho para poder voltar ao meu trabalho”, explica. (2005), e
O mesmo acontece com Héctor Abad Faciolince, autor de El Olvido Que Seremos (2010), com uma biblioteca de quase 7 mil volumes: “Tenho os livros como tesouros, mas paradoxalmente não estou apegado a eles. Não os maltrato, mas não me importa muito perder algum deles. Tenho com eles uma relação íntima, mas não são meus parentes, são amigos”. Já Daniel Samper Pizano, colombiano e autor Impávido Colosso (2006), com mais de 10 mil títulos em sua biblioteca, é tão ganancioso no empréstimo, como honesto no retorno. Sua coleção tem a primeira edição de “Cem Anos de Solidão”, com dedicatória do próprio García Márquez. Samper estabelece uma sútil comparação: “Se você tivesse investido em imóveis o que eu gastei em livros poderia ter uma cobertura em Manhattan … mas ela seria inútil sem os livros”. 
Afeto pelos livros também podemos encontrar no escritor argentino Rodrigo Fresán, autor de Jardins De Kensington (2007), que foi logo declarando sua paixão pelos empoeirados livros de sua coleção. “Estamos muito felizes juntos, e em crescimento. Na saúde e na doença, até que a morte nos separe”, diz Fresán. Já o peruano Santiago Roncagliolo (A Quarta Espada) é generoso e menos apegado: “Me mudei várias vezes, e em cada uma delas tenho dado meus livros. Sempre acredito que minha vida deveria pesar menos de 32 quilos, que é a bagagem que levo do Peru para Espanha. Todo o resto é desnecessário e nos mantém amarrados ao passado”.
Mas o argentino Alan Pauls (História Do Pranto) revela na pesquisa toda sua dependência do “vício” de manter livros: “Eu tenho com eles uma relação de necessidade (não consigo ficar longe deles), de culto religioso (acredito na superioridade do livro), de cumplicidade (confio mais nos livros do que na maioria das pessoas, das artes e das tecnologias). Minha biblioteca não é espetacular, não tem nenhuma suntuosidade, nem mesmo o brilho de um bem capital. Mas ela é a minha comunidade: lá estão meus interlocutores mais amigos e mais radicais, nela estão os que me apóiam, me defendem, me educam, me seduzem, me inspiram, me melhoram”. 
O apego aos livros não é diferentes conosco, leais leitores de alguns desses autores. Temos uma relação sempre apaixonada com nossos livros, com nossas estantes, com nossos cantos cobertos de obras passadas, lidas, empoeiradas, folheadas e admiradas como se fossem nosso tesouro. Passar a mão e escolher um de nossos livros é como reler nossa própria vida, como se a tivéssemos vivido junto com os personagens daquela história, parece que somos íntimos e que nunca vamos nos separar. Quando perguntaram ao escritor espanhol Eduardo Mendoza (A Assombrosa viagem de Pompônio Flato) qual livro de sua biblioteca escolheria para levar a uma ilha deserta, sua resposta mostra essa patológica relação: “Prefiro me afogar no naufrágio”.
.
Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cinema

Cinco grandes cenas do cinema musical.

por Filipe Vicente | Artes, Cinema, Música
Se você pensar bem, o cinema nasceu musical. Eu entendo se você disser que ele, na realidade, nasceu mudo. Mas, no fundo, literalmente ao fundo, a música sempre esteve presente: com fala ou sem. E é em homenagem ao cinema musical que eu destaco aqui 5 cenas inesquecíveis de grandes clássicos.
Para abrir essa lista, a abertura do encantador “O Mágico de Oz” (“The Wizard of Oz”, 1939), onde a doce Dorothy, interpretada pela grande estrela Judy Garland, lamenta sua atual situação e sonha com uma vida melhor cantando “Over the Rainbow”.

Quem não se lembra de Julie Andrews rodopiando nas montanhas Austríacas entoando os famosos versos “the hills are alive with the sound of music”? A atriz, que deu vida a Maria no filme “A Noviça Rebelde” (“The Sound of Music”, 1965), contou que regravou a cena diversas vezes, pois o vento do helicóptero que a filmava era tão forte e o veículo chegava tão perto que a derrubava à cada pirueta.
A cena não está na internet por causa dos direitos autorais (o filme completou 45 anos em 2010 e, pelo lançamento da caixa comemorativa, eles tiraram os vídeos do ar), mas no trecho abaixo (uma entrevista de 2005 em comemoração aos 40 anos do filme) você pode conferir a abertura logo nos três primeiros minutos.

Para não ser injusto, a última abertura está presente com “Grease” (1978). Um clichê vivo na memória de qualquer um que tenha visto o filme ao menos uma vez. John Travolta e Olivia Newton-John, deram vida aos estudantes Danny e Sandy, que fizeram dessa divertida história um marco do cinema.

O grande astro Gene Kelly aceitou fazer o papel de Don Lockwood e nos presenteou com seu talento no inesquecível “Cantando na Chuva” (“Singing in the Rain”, 1952). Um filme quase sem cortes, com sequências musicais extremamente criativas e um elenco incrivelmente afiado. Dá ou não dá vontade de dançar junto?

O último vídeo da lista nos trás o emocionante final de “Dirty Dancing” (1987), quando o bad-boy Johnny Castle (Patrick Swayze) tira a boa moça Frances ‘Baby’ Houseman (Jennifer Grey) para dançar ao som de “(I’ve had) The Time of my Life”. Encantador!Assista os vídeos link aqui
Filipe Vicente é ator, colaborador da Livraria Cultura e do Blog da Cultura.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Literatura

Noel Rosa: O poeta do samba e da cidade

por Kelly de Souza | História, Literatura, Música, livros
No começo dos anos 1930, Noel Rosa percorria o Rio de Janeiro a bordo do seu Chevrolet dois cilindros, cor de azeitona, apelidado Pavão. O bairro carioca de Isabel era, no início do século XX, uma das áreas mais musicais da cidade. Foi lá, na Rua Theodoro da Silva, que em 11 de dezembro de 1910 nasceu o compositor-poeta. Disse Tom Jobim que “poucos compositores cantaram o Rio melhor que Noel. O Rio das gírias, dos costumes, da malandragem, da graça, da delegacia policial, do revólver, do xadrez, do Tarzan, dos bairros, da sua querida Vila Isabel”.
Isso porque ele costurou a geografia carioca com seu samba, com sua poesia urbana que nasce do cotidiano das ruas. Essa relação umbilical entre a obra de Noel Rosa e o local de onde veio o artista é contada, em homenagem ao centenário de seu nascimento, no livro Noel Rosa – O poeta do samba e da cidade, do historiador André Diniz, também autor das biografias dos chorões Joaquim Callado e Anacleto Medeiros, etc. Segundo o pesquisador, Noel Rosa marcou de forma definitiva a história da música popular brasileira com a miscigenação do samba, com um sotaque das percussões do morro, com surdo, tamborim e cuíca, e com uma poesia clara, objetiva e repleta de palavras do cotidiano carioca.
Do primeiro sucesso, “Com que roupa?”, gravado em 1930, até a última composição “Último desejo”, de 1937, o andarilho Noel Rosa construiu sua obra em um Rio de Janeiro em pleno processo de crescimento urbano, testemunhando a transição entre o Brasil rural da Primeira República e o Brasil, que a partir da década de 1920, se transformou em um país cada vez mais urbano. “O Rio fez Noel, e Noel fez o que conhecemos como Rio e como carioca. A sua poesia popular apresenta essa cidade em transformação, com seus tipos, seus espaços de sociabilidade e seu cenário marcado pela exclusão e pela promiscuidade das classes sociais”, explica Diniz. Para ele, nenhum compositor destilou tanta experiência e percepção nas trocas de linguagem com artistas de diferentes origens sociais.
Luiz Antonio Simas, autor de Samba de enredo - história e arte, entre outros, explica que vários são os casos, na história da música brasileira, da íntima relação entre a obra criada e o local de onde veio o artista. É impossível, por exemplo, compreender Luiz Gonzaga sem o sertão nordestino, Dorival Caymmi sem o mar da Bahia e Adoniran Barbosa sem São Paulo. Noel é ainda hoje, cem anos depois de seu nascimento no bairro de Vila Isabel, o grande poeta de uma cidade que ninguém resiste, na beleza triste de um samba-canção. “Longe de ser um expectador passivo dessa realidade feérica de transformações, Noel resolveu viver no olho do furacão e atuou como um verdadeiro mediador cultural entre o asfalto e o morro, o saber letrado e o saber popular. Sua obra é talvez o exemplo mais bem-acabado de uma cultura que rompe fronteiras, investe em circularidades que se influenciam e escancara a riqueza impura e cheia de vitalidade do que era e é a cultura carioca”, conta Simas.
É justamente esse Noel e esse Rio que o livro “O poeta do samba e da cidade” retrata. Além desse passeio histórico pela cultura brasileira, o livro – ricamente ilustrado – traz um CD com novas gravações de clássicos como “Com que roupa?”, “Palpite infeliz” e “Três Apitos”. Diniz conta que o compositor era ligado à tradição modernista que viria influenciar grande parte da MPB. “Talvez a obra de Chico Buarque e Caetano Veloso não seria a mesma sem a influência de Noel”.
Noel Rosa morreu aos 26 anos, depois de mudar a Música Popular Brasileira. Ainda hoje, muitas de suas 259 composições continuam sendo regravadas por diversos artistas. Vale sempre lembrar!
Cena do filme Noel, o poeta da Vila com a música ”Último Desejo” cantada pelo Mestre Wilson das Neves. 
créditos:Blog da CULTURA
Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura.
assista o vídeo, link aqui

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

literatura

Tolkien – senhor dos anéis e da fantasia

por Kelly de Souza | História, Literatura, livros
John Ronald Reuel Tolkien, conhecido como J.R.R. Tolkien, faria ontem 119 anos. Lembrar desse gênio nunca é demais, sendo sempre muito prazeroso. Um homem comum, assim se via um dos mais respeitados autores do século XX. Mais do que isso: em seu discurso de despedida, realizado depois de lecionar literatura por 34 anos na Universidade de Oxford (de 1925 a 1959), esse gigante da fantasia explicou: “Eu sou um amador”. Que diferença com as celebridades de hoje!
Tolkien começou a escrever para satisfazer sua vontade interior e para entreter seu núcleo familiar e o círculo de amigos. A literatura fantástica na primeira metade do século XX não era considerada algo digna de pertencer ao cânone literário. Não era estudada nas universidades, e seu grupo de leitores se concentrava num reduzido público infantil. Tolkien mudou tudo. Sua “presença” revolucionou a atitude do público em relação à Fantasia, sendo hoje considerado um dos responsáveis pelo novo status adquirido pelo gênero.
Muito antes de o cinema tê-lo descoberto, o autor já havia descoberto que o universo da “fantasia medieval” tinha encantos que atraiam milhões de leitores, em qualquer língua. Outros autores já haviam antecedido Tolkien, como G.K. Chesterton, George MacDonald, Lewis Carroll, etc., mas ninguém havia conseguido como ele penetrar na mente dos leitores e infectá-los com um vasto repositório de lendas e mitos, construído nos mínimos detalhes com línguas, mapas, raças, costumes, cronologias e cenários que tiravam a respiração dos mais pragmáticos leitores. O espaço imaginário de Tolkien é quase enciclopédico, e seu talento para transformar “histórias de fadas” em grandes romances épicos poucas vezes foi superado. Ele mesmo utilizou o termo “fairy-story” para designar o gênero fantástico que abraçou.
Nascido em 3 de janeiro de 1892 na África do Sul, Tolkien perdeu o pai (bancário) quando tinha 4 anos e a mãe quando estava com pouco mais de 12 anos. Sem recursos para sobreviver, mas com talento, dedicação e bolsas de estudo foi estudar Língua e Literatura Inglesa em Oxford. Aos 21 anos casou-se com Edith Bratt e tiveram quatro filhos. Bratt inspirou o personagem Lúthien Tinúviel, a elfa da obra O Silmarillion, uma coletânea de trabalhos mitopoéticos publicada depois de sua morte pelo filho Christopher em 1977. Tolkien descreve na obra os fatos que transcorrem na chamada “Primeira Era”.
Em algumas biografias de Tolkien, sugere-se que enquanto ele corrigia provas no início da década de 1930 (já professor em Oxford) deparou-se com uma folha em branco e escreveu no verso: “Numa toca no chão, vivia um hobbit“, e desse lampejo repentino surgiu a obra-prima infantil O Hobbit, seu primeiro grande sucesso, publicado em setembro de 1937. Esses seres cabeludos e pacíficos, sem poderes mágicos, mas rápidos ao ponto de poderem desaparecer sem deixar vestígios, são habitantes do continente Terra Média (nome para a terra antiga – fictícia – criada por Tolkien e onde a maioria de seus contos ocorre). Os hobbits não gostam muito de gente grande (seres humanos), e a história do pequeno Bilbo Baggins, apanhado por um mago (Gandalf) e 13 anões que queriam recuperar seus tesouros (roubados pelo dragão Smaug) foi escrita originalmente por Tolkien para seus quatro filhos.
Bilbo tornou-se num herói reverenciado por qualquer leitor de qualquer idade, e seus leitores pediam obstinadamente uma sequência. Durante doze anos Tolkien trabalhou na continuação das aventuras na Terra Média, com inúmeras interrupções devido às vicissitudes de um homem que, independente de ser um grande autor, era dedicado ao lar e à educação dos filhos, e tinha as obrigações de um professor universitário (fora as vigilâncias noturnas que fez durante a II Grande Guerra Mundial). Mas Tolkien continuou a saga, publicando entre 1954 e 55 sua obra máxima, a trilogia O Senhor dos Anéis, que promoveu uma retumbante consagração ao seu autor. Foi reimpressa várias vezes, traduzida em mais de 45 idiomas, com vendas superiores a 150 milhões de cópias.
“O Senhor dos Anéis” foi desenvolvida numa atmosfera ficcional diferente de sua obra anterior. Tolkien insere um grande número de personagens, alinha longas descrições repletas de detalhes, se preocupa com as referências exteriores para os acontecimentos de “O Hobbit” e  “O Silmarillion” (na época ainda desconhecido do público), sendo talvez a maior fascinação da obra a enorme capacidade do autor de criar e desenvolver diversos planos narrativos ao mesmo tempo.
Em 28 de Agosto de 1973 Tolkien passou mal durante uma festa e foi internado com úlcera e hemorragia. No dia seguinte diagnosticaram uma infecção no pulmão, e cinco dias depois, nas primeiras horas de um domingo (2 de Setembro de 1973), aos 81 anos, Tolkien morreu em solo inglês. “Eu próprio sou um hobbit, em tudo, até no tamanho. Eu amo jardins, árvores e o campo sem máquinas. Gosto de fumar cachimbo, de comer modestamente, ir para a cama tarde e acordar igualmente tarde, e não viajo muito”, explicou o autor, que reinventou a fantasia literária no século XX. A influência desse escritor na arte literária, cinematográfica e teatral talvez tenha poucos paralelos no século XX e XXI. Tolkien mostrou que os efeitos especiais já existiam nos livros antes de serem criados pelo cinema. Não existiria, por exemplo, um “Avatar” se antes não tivesse existido J.R.R. Tolkien. Ele mostrou que a imaginação literária já era 3D há muitos anos.
.
Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. 
créditos: Blog da Cultura