atitude
resgate e história
Amnon Weinstein e os Violinos da Esperança
Reviver a música que foi silenciada durante o Holocausto. Resgatar histórias dos que perderam a vida na guerra. Assim começou a busca do luthier israelense Amnon Weinstein pelos violinos perdidos. Esse trabalho resultou na criação do projeto Violinos da Esperança que vai muito além da restauração dos instrumentos
Suzana Camargo, de Zurique, Suíça – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 09/12/2010
Amnon Weinstein transborda emoção ao falar do projeto pessoal ao qual tem devotado os últimos anos da vida. Extremamente atencioso e educado, o senhor de 71 anos fala sem pausas, principalmente ao contar como tudo começou. Planeta Sustentável – 09/12/2010
O pai lituano, Moshe Weinstein chegou a Israel em 1938. Logo o luthier estava trabalhando em Tel-Aviv, fabricando os primeiros violinos da recém-formada Orquestra Filarmônica de Israel, na época conhecida como a Orquestra Palestina. Os instrumentos foram para as mãos de jovens músicos como Itzhak Perlman, Pinchas Zukerman e Shlomo Mintz. Em pouco tempo, novos instrumentistas vindos da Europa juntaram-se ao grupo.
Na realidade, a Orquestra Palestina, fundada pelo violinista polônes Bronislaw Huberman, em 1936, foi criada para acolher os músicos judeus que estavam sendo expulsos das orquestras européias por causa do antisemitismo. Eram músicos de excepcional talento, que não podiam mais tocar nos palcos da Europa.
Entretanto, na década de 30, em Israel, eram pouquíssimos os artesãos que fabricavam violinos e violoncelos. Moshe Weinstein era um dos únicos. Certamente, um dos mais experientes. “Quando vinham da Europa, os músicos judeus traziam na bagagem um, dois ou até mesmo quatro instrumentos. Eles sabiam que, caso um dos violinos quebrasse, precisariam ter outro para poder tocar”, conta Weinstein.
Estima-se que cerca de cem músicos chegaram a Israel nos primeiros anos da Guerra. Juntando familiares e amigos, o número de judeus refugiados aproxima-se de três mil pessoas. Três mil vidas que foram salvas graças à música. Bronislaw Huberman foi o principal responsável em conseguir junto às autoridades que essas pessoas conseguissem chegar até o país.
Esses músicos, a maioria vindos da Alemanha, Áustria e Polônia, levaram para Israel instrumentos confeccionados pelos melhores artesãos europeus. Mas foi só em 1945, pouco depois do final da guerra, que os israelenses descobriram as reais atrocidades que tinham acontecido nos campos de concentração nazistas. Chocados com a verdade, em sinal de repúdio e indignação a qualquer coisa vinda ou feita na Alemanha, os músicos começaram a destruir e jogar fora instrumentos produzidos naquele país. “Ninguém mais queria tocar naqueles instrumentos porque eram alemães. Eles eram destruídos, queimados. Entretanto, alguns foram trazidos ao meu pai, que não conseguiu jogá-los no lixo. Ele os comprou e guardou numa coleção, que continha alguns dos melhores violinos já fabricados na Alemanha”, diz Weinstein.
Assim como o pai, ele escolheu como profissão fabricar e consertar instrumentos de corda. Estudou na Europa e teve como tutores Étienne Vatelot, em Paris, e Pietro Sgarabotto, na cidade italiana de Cremona, onde nasceu o violino Stradivarius. Depois da morte do pai, Weinstein assumiu seu lugar na pequena oficina em Tel-Aviv. Com renome internacional, o israelense já ganhou vários prêmios, entre eles o norueguês Ole Bull, e na cidade natal, foi um dos fundadores do prestigiado instituto Keshet Eilon, onde ministra cursos e workshops.
No começo da década de 90, Weinstein teve um jovem aluno de Dresden, na Alemanha. Impressionado com o que aprendeu e viu nos museus israelenses, o estudante insistiu que o tutor desse palestras na Associação dos Luthiers da Alemanha sobre as histórias dos violinos e o Holocausto. Demorou algum tempo para que Amnon Weinstein aceitasse falar sobre o assunto, algo traumático na vida desse judeu que perdeu mais de 300 familiares nos guetos e campos de concentração alemães. “Quando finalmente fui à Alemanha, levei alguns violinos comigo e falei durante duas horas. Ao final, a plateia estava quieta, ninguém conseguia dizer sequer uma palavra”, relembra. Para muitos, tomar conhecimento daquela triste história foi um choque.
Durante esse período de palestras na Alemanha, Amnon Weinstein também falou em rádios. Nessas conversas, pedia aos ouvintes informações sobre violinos que sobreviveram à guerra. O luthier queria encontrar outros instrumentos perdidos durante o Holocausto, não somente aqueles que estavam em Israel, mas tantos outros desaparecidos na Europa pós-guerra. Sem perceber, ali começava a tomar vida o projeto Violinos da Esperança.
Ao longo dos últimos 15 anos, decidiu transformar numa missão pessoal a busca pelos violinos perdidos ou destruídos durante o Holocausto. O luthier recuperou uma dezena deles, que chegaram até ele em péssimo estado. Um, em especial, demorou aproximadamente um ano para que pudesse ser tocado novamente. Cerca de 26 instrumentos que têm uma parte da existência ligada ao Holocausto estão hoje nas mãos cuidadosas e experientes do luthier israelense. Alguns pertencem à Weinstein, outros foram emprestados pelas famílias dos verdadeiros donos, a maioria já morta.
Esses anos de pesquisa levaram Weinstein a se defrontar com histórias emocionantes. Um dos violinos da coleção recebeu o nome de Motele, o nome do dono, um menino judeu de 12 anos, que tocou para os oficiais da SS em Belarus, em 1944. A história do jovem e talentoso músico, que se juntou a guerrilheiros para lutar contra os nazistas, já se tornou uma lenda. Diariamente, Motele trazia a mala do violino cheia de explosivos. Após cada apresentação, o menino minava o edifício nazista com novos explosivos. Depois de muitas idas e vindas, o menino músico completou a missão. Explodiu o prédio onde oficiais alemães bêbados terminavam a noite. O herói mirim morreu dois anos mais tarde numa emboscada. Para contar a história, restou seu violino. Guardado durante décadas num armário, foi levado até Weinstein há oito anos. Restaurado, já voltou a ser tocado por outros jovens músicos.
Outro violino da coleção, tinha sido enterrado embaixo do arame farpado do campo de Auschwitz. Pertencia a um judeu, membro da orquestra local. O instrumento foi encontrado por um militar americano e guardado durante anos num depósito do exército. “Há cerca de um mês uma família veio me procurar com um violino que foi tocado na orquestra de Auschwitz”.
Milhares de violinos, violoncelos e violas dos judeus foram confiscados pelos oficiais nazistas. Parte desse roubo foi documentada, o que faz com que se saiba quem eram os proprietários desses instrumentos. “Sabemos quem eram os donos, mas não conseguimos descobrir ainda onde eles estão”, afirma. Mas, infelizmente, milhares de outros violinos jamais serão retornados aos reais herdeiros. Uma missão impossível, que nunca será realizada.
Weinstein tem alguns violinos com uma particularidade: possuem uma Estrela de David desenhada na madeira, na parte de trás do instrumento. É o sinal de que esses violinos eram utilizados para tocar a música judaica tradicional, chamada de klezmer. São especiais e raros. Não são muitos no mundo que carregam a estrela do judaismo. Os que fazem parte da coleção do luthier pertenceram a músicos que foram obrigados a tocar nas orquestras dos campos de concentração. Sob chuva – o pior inimigo de um violino, no frio das ruas e nas condições mais adversas, a música desses instrumentos despertou risadas, embalou danças e trouxe alegria em momentos de felicidade e sofrimento. Música judaica que até então era tocada para celebrar e alegrar festas, foi usada para aliviar a dor daqueles prestes a morrer. “Quando encontramos um instrumento como esse, com a Estrela de David, temos certeza que ele pertencia a um judeu. Para mim, é como esse violino fosse a lápide dos mortos durante o Holocausto”.
Os violinos restaurados por Amnon Weinstein já participaram de concertos em Istambul, Paris e Estados Unidos. A primeira performance aconteceu nas muralhas da Cidade Velha, em Jerusalém. Membros da Symphonette Raanana de Israel e da Orquestra Filarmônica de Istambul tiveram a honra de tocar os Violinos da Esperança. Em 27 de janeiro de 2011, eles também estarão presentes no International Holocaust Remembrance Day, na Espanha. “Eu procuro documentos, fotos. A busca nunca acaba. Pelo contrário, me cativa cada vez mais. Tento descobrir a história desses violinos, mas, sobretudo, quero que eles voltem a ser tocados. As pessoas precisam ouvir a música deles novamente. Os violinos são as vozes das vítimas ... Seis milhões de vítimas”.
Além da recuperação dos instrumentos, o projeto Violinos da Esperança ganhou uma dimensão maior. Recentemente no Festival Internacional de Violinos em Sion, na Suíça, havia um espaço especial dedicado ao projeto com documentário, exposição de fotos e workshops com Weinstein.
“Cada violino tem uma história ... Quando você sabe quem foi a pessoa que o tocou, principalmente se ela esteve no Holocausto, torna-se muito difícil – emocionalmente, trabalhar com esse instrumento. Mas quando eu descubro que o violino salvou vidas, é maravilhoso ouvir o som dele novamente. Muitos músicos não morreram, graças a esses instrumentos”.
“We strive to understand the future and yet, at the same time, we probe the past. Historians seek evidence of the past; writers seek stories, and musicians, music. (…) Even if the violinists who used these instruments have disappeared, I try to promise them that their music will be reborn as the notes are played” - Amnon Weinstein
resgate e história
Amnon Weinstein e os Violinos da Esperança
Reviver a música que foi silenciada durante o Holocausto. Resgatar histórias dos que perderam a vida na guerra. Assim começou a busca do luthier israelense Amnon Weinstein pelos violinos perdidos. Esse trabalho resultou na criação do projeto Violinos da Esperança que vai muito além da restauração dos instrumentos
Suzana Camargo, de Zurique, Suíçaleia mais,acesse:
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/amnon-weinstein-violinos-esperanca-612498.shtml


Nenhum comentário:
Postar um comentário